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  • SciELO Books / SciELO Livros / SciELO Libros MAZZOLA, RB. Michel Pcheux: os limites de um projeto. In: O cnone visual: as belas-artes em discurso [online]. So Paulo: Editora UNESP; Cultura Acadmica, 2015, pp. 69-96. ISBN 978-85-7983-671-8. Available from: doi: 10.7476/9788579836718. Also available in ePUB from: http://books.scielo.org/staff/book/id/bywgd/attachs/9788579836718.epub

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    2 - Michel Pcheux os limites de um projeto

    Renan Belmonte Mazzola

  • 2 michel pcheux: os limites de um

    projeto

    Em nossa trajetria de investigao da emergncia da imagem de arte como objeto da anlise do discurso, preciso retornar histria conceitual dessa disciplina para a compreenso do lugar ocupado pelas reflexes acerca da imagem. A leitura dos ltimos textos de Pcheux revela a mutao dos objetos da anlise do dis-curso entre 1980 e 1983. Para examinarmos esse perodo com maior acurcia, devemos considerar a diviso seguinte:

    i. Michel Pcheux e seus trabalhos;ii. A anlise do discurso enquanto projeto terico.Gostaramos de esclarecer com essa diviso que, enquanto pro-

    jeto terico, a anlise do discurso poder levar em conta diversas materialidades discursivas a partir das alianas com outras teorias, a partir do pensamento de seu fundador que persistiu alm de sua morte, a partir dos desenvolvimentos da teoria discursiva em outros territrios e em outros momentos histricos. Por outro lado, se con-siderarmos Pcheux e seus escritos unicamente, observaremos que ele nunca deixou de trabalhar com o discurso poltico-partidrio verbal destacamos as reflexes sobre o enunciado On a gagn (Pcheux, 2002). Ao elencar, a seguir, os trechos em que Pcheux menciona a pintura e seu funcionamento em um dado discurso e em uma dada sociedade enquanto materialidade de legitimao do

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    discurso verbal, compreenderemos em alguma medida qual era o papel das artes plsticas com relao aos discursos ideolgicos, re-gentes dos demais tipos de discursos. Com efeito, retomar esses tre-chos permite de igual maneira observar as interpretaes que deles foram feitas, ao longo dos tempos, por especialistas do discurso.

    Nota sobre o primeiro momento da anlise do discurso (1969-1975)

    Sabemos que a anlise do discurso, na sua primeira poca (Pcheux, [1983] 1997b), buscava apreender discursivamente os enunciados verbais, haja vista o mecanismo de anlise automati-zada, o corpus da AD-1 e a inflexo de Pcheux pela teoria saus-suriana nesse primeiro momento, que marcadamente centrado na relao que Pcheux estabelece com Louis Althusser (1983), acerca do conceito de ideologia. O objeto de anlise constitua-se de grandes textos polticos escritos e os dispositivos de anlise se voltavam unicamente para eles. A principal preocupao desse perodo pousava na questo do mtodo estruturado, e isso pode ser facilmente observado na segunda parte do livro Anlise automtica do discurso, de Pcheux ([1969] 1997a), cujo destaque se volta para os clculos matemticos e algoritmos que descrevem o dispositivo de anlise automatizada do processo discursivo, que se realizava por meio da ajuda de recursos informticos para o processamen-to de grandes quantidades de corpora. Ao analista cabia interpre-tar os dados (sempre lingusticos) obtidos aps a automatizao, relacionando-os com: a) a ideologia; b) com os sujeitos; e c) com o histrico-social.

    Nota sobre o segundo momento da anlise do discurso (1976-1979)

    Em sua segunda poca, alguns dogmas herdados da fase ante-rior foram relativizados e sofreram um tmido afrouxamento. Em 1975, ano da publicao de seu segundo grande livro, Semntica e

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    Discurso: uma crtica afirmao do bvio, Pcheux ([1975] 1995a) relativiza a tese do sujeito estritamente assujeitado pela ideologia com a formulao dos dois esquecimentos, segundo a qual o sujeito possui algum controle sobre os enunciados verbais que emite. Em 1982, foi adicionado a esse livro um anexo escrito trs anos aps a publicao de Semntica e Discurso, intitulado S h causa daquilo que falha ou o inverno poltico francs: incio de uma retificao (Pcheux, [1982] 1995c) que relativiza alguns procedimentos e rev certos conceitos aplicados na primeira verso de 1975. Em outro texto anexo, no mesmo livro, esboa-se a possibilidade de se considerar a propaganda poltica enquanto elemento da linguagem da revoluo socialista, cuja retrica apresenta-se a servio do ver-dadeiro, no qual intervm elementos que tocam primeiro os olhos e o corao antes de atingir o esprito (Pcheux, 1995b, p.284).

    Nota sobre o terceiro momento da anlise do discurso (1980-1983)

    nessa terceira fase de 1980 em diante que se estabelece, em grande parte, nosso trabalho, pois percebemos um afastamento de Pcheux com relao s teses althusserianas e uma aproximao com as teses foucaultianas. Sobretudo, gostaramos de destacar dois pontos sobre a terceira poca: a abordagem das falas ordinrias mesmo que ainda no campo poltico-partidrio e as reflexes acerca da imagem enquanto operador de memria social. Em seu livro O discurso: estrutura ou acontecimento, por exemplo, Pcheux ([1983] 2002) debrua-se sobre um enunciado poltico comum: On a gagn, pronunciado pelos eleitores de Franois Mitterrand, do partido de esquerda, que ganhara as eleies para presidente da Repblica Francesa no dia 10 de maio de 1981. Esse enunciado, segundo Pcheux, atravessado por discursividades da mesma maneira que os escritos doutrinrios, pois revela uma estrutura1

    1 On a gagn : sujeito indefinido on, referindo-se indeterminadamente aos militantes do partido esquerdista francs ou ao povo geral da Frana; ausncia

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    e integra um acontecimento.2 A partir de ento, as formulaes cotidianas, tomadas no ordinrio do sentido, passam a integrar o corpus do analista de discursos. Em Papel da memria, Pcheux ([1983] 2007) e outros autores abordam a questo das materiali-dades no verbais enquanto lugar de inscrio da memria social. Nesse texto, Pcheux delineia algumas reflexes acerca da imagem pensada como instncia atravessada pela histria e pela memria no processo de circulao discursiva e questiona sua posio com relao a Roland Barthes. Esses dois pontos sero retomados mais adiante.

    As ltimas palavras de um autor inquieto

    Michel Pcheux, em seus ltimos textos, j alertava para as transformaes do discurso poltico, sem, no entanto, se deter nos desdobramentos das tecnologias de comunicao de massa e futuras consequncias de sua popularizao para a percepo do homem pblico. Embora fosse consciente da mutao dos discur-sos com relao mdia emergente, esses apontamentos aparecem sob a forma de breves menes, e a ausncia de um maior aprofun-damento impede a plena ancoragem de afirmaes a esses trechos.

    Nos seus ltimos textos, Michel Pcheux fala das mudanas do discurso poltico, reiterando que esse campo discursivo estava, j

    de complemento, levando ao questionamento ganhamos o qu?. Em uma partida de futebol, a resposta bvia, mas e no terreno da poltica? Ademais, devemos lembrar que esse enunciado deslocado do campo do esporte, motivo pelo qual se observa o estranhamento no momento de sua irrupo (Pcheux, [1983] 2002).

    2 Para Pcheux ([1983] 2002, p.17), o acontecimento se estabelece no ponto de encontro de uma atualidade e de uma memria. Ao isolarmos o enunciado On a gagn, percebemos que a irrupo desse acontecimento na histria se inscreve em uma atualidade, ao mesmo tempo em que retoma uma memria proveniente do esporte, que se configurava como campo primeiro de exis-tncia desse enunciado, antes de seu deslizamento para o campo da poltica.

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    naquele perodo, amplamente midiatizado. A lngua de madeira (dura e hermtica) havia se transformado em lngua de vento (fle-xvel, cotidiana, mas quase nada referencial), e as eleies pareciam cada vez mais manifestaes esportivas transmitidas pelas mdias. As modificaes do objeto de anlise j haviam imposto transfor-maes tericas e metodolgicas: j era o tempo da heterogenei-dade, da busca por novas vias, distanciando-se de uma vulgata do marxismo althusseriano, de novas materialidades discursivas, da emergncia das noes de memria discursiva, de acontecimento discursivo etc. Mas, apesar das sugestes de Pcheux, ainda no era chegado o tempo de considerar, de fato, o discurso poltico no tempo das mdias. (Piovezani Filho, 2007, p.113, grifo nosso)

    Segundo Piovezani Filho (2007), os ltimos textos de Pcheux, nos quais ele discorre sobre as mudanas no discurso poltico, so:

    A lngua inatingvel (Gadet; Pcheux, [1981] 2004). Delimitaes, inverses, deslocamentos (Pcheux, [1982]

    1990b). O discurso: estrutura ou acontecimento (Pcheux, [1983] 2002). Ao lado desses trs textos sugeridos, inclumos tambm, por

    nossa conta: Ouverture du colloque (Pecheux, [1981] 1981b).3 Lnonc: enchssement, articulation et d-liaison (Pcheux,

    1981c). Papel da memria (Pcheux, [1983] 2007). Sobre os contextos epistemolgicos da anlise de discurso

    (Pcheux, [1984] 1998). Metfora e interdiscurso (Pcheux, [1984] 2012).Percorreremos esses textos com vistas a encontrar os trechos em

    que Pcheux discorre sobre elementos que significam alm ou ao

    3 Os dois textos de Pcheux (1981b; 1981c) fazem parte da mesma ata do col-quio realizado entre 24 e 26 de abril na Universit Paris X Nanterre. As atas do colquio Materialits discursives foram publicadas em 1981, pelas Presses Universitaires de Lille.

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